No enterro do sushiman
Luis Fernando Verissimo
No enterro do sushiman ele era o único não-japonês. Explicou que estava ali porque devia sua sanidade, talvez sua vida, ao sushiman. Almoçava no mesmo restaurante japonês todos os dias. Sentava-se no balcão e despejava seus problemas para o sushiman, que apenas sorria, sacudia a cabeça e dizia sempre a mesma frase. Ele não sabia o que a frase significava. Sabia, pelo modo como o sushiman a dizia, que era uma frase sábia. E sentia-se melhor, ouvindo a frase. Alguém o compreendia. Alguém o consolava. Como era a frase? Ele a repetiu, da melhor maneira possível. Então disseram que a frase significava: “Eu não falo português”.
- Sei lá - disse ele. - Mas ajudou, viu?
O Candiota
Chamava-se Candiota e, semanas antes do casamento marcado, disse para Laurita que iria abandoná-la.
- É Outra? - perguntou Laurita, soerguendo-se na cama. (Nota pessoal do autor: sempre gostei muito do verbo "soerguer-se", mas tive poucas chances de usá-lo até hoje. Agradeço a oportunidade. Um abraço nos meus familiares. Segue a história.)
- Não - respondeu Candiota. - É Outro.
Como não percebeu o "O" maiúsculo, Laurita pensou que o Candiota, logo o Candiota, fosse homossexual. Mas o Candiota apressou-se a corrigir o engano. O Outro era o Senhor. - Fui chamado pelo Senhor.
Deus o convocara, e Candiota não poderia ter qualquer distração na luta contra o Demónio. Muito menos a Laurita, com seus mamilos tipo medalhão.
Laurita se resignou. Renunciou à missão que se impusera, a de reproduzir tantos Candiotas quanto pudesse para ajudar o Brasil, em favor da missão do Candiota, de combater o Demônio em todas as suas manifestações.
Anos depois, num baile de Carnaval, Laurita julgou identificar o Candiota num grupo de homens fantasiados de legionários romanos que circulavam pelo salão com mulheres seminuas sentadas sobre os ombros. Não pôde ter certeza que era o Candiota porque ele era o único que segurava a mulher ao contrário e tinha a cara enterrada entre as suas coxas.
Talvez não fosse o Candiota. Talvez fosse o Candiota e ele estivesse numa missão secreta para o Senhor, em território inimigo. Talvez fosse o Candiota e ele tivesse mentido para ela. Talvez fosse o Candiota e... O homem depositou a mulher que tinha sobre os ombros em cima de uma mesa, e Laurita viu que era o Candiota.
Gritou para ele:
- Candiota, e a sua luta contra o Demônio?
E então Candiota virou-se, avistou Laurita, abriu os braços dramaticamente e respondeu:
- O Demônio venceu!
Conselho
Rogério bufava.
- E ainda tem gente que gosta de verão...
Marina nem estava.
- Eu adoro.
- Olha aí, fico todo suado. A pele oleosa. Não adianta banho, não adianta nada. Fico com brotoeja, assadura, até cheiro mal.
- Rogério, meu querido. Vou te dizer uma coisa.
- O quê?
- O problema não é o verão. O problema é você.
- Ah, é? Aposto que o Alberico não suava.
Marina só pôde fazer cara de sentida e dizer: “Puxa, como você é, Rogério”. Sabia que nunca deveria ter contado o que o Alberico gostava de fazer no banheiro. “Dezessete anos e você não esquece”.
O sorriso na cara suada do Rogério era de puro gozo. Marina só estava esperando a Rosilene ficar maiorzinha para lhe dar o único conselho que uma mãe deve dar à filha:
- Nunca conte nada do seu primeiro marido.
PRONOMES
- Carlinhos, me faz um favor?
- Claro.
- Quando a gente estiver com a turma...
- O quê?
- Não fala certo demais.
- O quê?
- É que a turma repara. Os pronomes, por exemplo. Você sempre coloca no lugar certo. Fica esquisito.
- Os pronomes? Não posso usá-los corretamente?
- Está vendo? Usar eles. Usar eles!
O Carlinhos ficou tão confuso que, junto com a turma, não falou nem certo nem errado. Não falou nada. Até comentaram:
- O Carol, teu namorado é mudo?
Ele ia dizer “Não, é que, falando, fatalmente sentir-me-ia vexado”, mas se conteve a tempo. Depois, quando estavam sozinhos, a Carolina agradeceu, com aquela voz que ele gostava:
- Comigo você pode botar os pronomes onde quiser, Carlinhos.
Aquela voz de cobertura de caramelo.
Domingo, 9 de abril de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.